homens

16:13


Stephan Dybus Malblock


acordar no umbigo de uma mulher.
sem saber onde está. sem saber onde esteve.
quarto, floresta, parque, estádio –
algo que dê nome ao onde.

o sépia da paisagem, indício de que vive,
infiltra-se na cegueira. mãos inquietas percebem
a mulher verde que acolhe sua miudeza.

embora não possa ver a tatuagem de borboleta, os dois
olhos de lince, os cabelos tingidos de vermelho,
seu corpo perfeitamente nu
e morto, no vermelho da barriga flácida e cortada
lê-se GENOCÍDIOS. acordou, sem saber,
no centro do O abafado e escuro.

se fizesse menos sentido, diz de si pra si,
a cólica seria maior. quase ouve as colchas
(citei as colchas?) suplicando por uma senha.
onde está o general? os cabos? tanques?
sobretudo: onde estão as crianças?

sente a ausência pesada da bandoleira
nos ombros delgados de garoto. o solo epidérmico
está mais febril que de costume. nenhuma doença
pode ter sido contraída nas últimas semanas. fora a mordida
de jaguar. fora o invulnerável trauma. o medo 
conjura elevador de escápulas, pelo qual 
os desistentes recobram o esquecimento, mas lamenta 
não ter aprendido magia com seus ancestrais. 

o vento pede. as colchas erguem-se. 
um mundo fêmea se ilumina e relampejando
devolve o escuro aos olhos. as pálpebras,
cortinas que não se fecharam para estilhaços,
aviões, chuvas imundas e bonecas sujas de vinho, suicidam-se
antes de qualquer confronto. seus ressentimentos
encobrem as vísceras covardes, imperfeitas, inúteis,
e os distantes sonhos com as bocas fumacentas.



_Gabriel Resende Santos_

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