breve entrevista no blog spirituals do orvalho

20:17

A queridíssima Neuzza Pinheiro me deu a enorme honra de abrir a nova série de entrevistas-relâmpago do seu blog, o Spirituals do Orvalho. Apesar do entrevistado, vale pela entrevistadora.

Reproduzo a entrevista logo abaixo, aproveitando também para linkar o blog da poeta, onde você confere o belo texto de apresentação. Indico a visita geral ao espaço. Neuzza já reuniu (e continua a reunir) diversas preciosidades da poesia e da música em seu Spirituals. Vale a caminhada por lá. Mesmo.



Quem é você, nestes tempos em que ninguém se pergunta quem é e até esquece?

Então. Sempre foi muito difícil me definir. Desde bem pequeno. Tornava mais difícil ainda o convívio com essa ideia burra de coerência. Parecia mais interessante ser algo ontem e alguma coisa amanhã, sabe? Mais tarde percebi que foi o que me impediu de contrair preconceitos, vícios, enxaquecas existenciais e, principalmente, foi o motivo da paixão pela linguagem e seu lado experimental. Lógico que na época não era capaz de compreender intelectualmente aquela indecisão. Hoje, graças aos Kafkas e Eliots que cruzaram minha vida, me orgulho de possuir ainda mais indecisões. E reconheço os momentos em que preciso defender minhas incertezas como se fossem certezas. Porque tem gente que faz isso e aquilo pra chegar no dia seguinte se fazendo de bobo “ei, como/quando/quem?”. Aí não pode. Sabe a primeira estrofe de Cogito, aquele poema do Torquato ("eu sou como eu sou/pronome/pessoal intransferível/do homem que iniciei/na medida do impossível")? É outra resposta possível à sua pergunta. Ah! Tem um filme que você precisa ver, Millenium Actress, do Satoshi Kon, um animador japonês, em que a protagonista viaja por diversos universos fílmicos em busca de seu grande amor. Quando atinge uma idade elevada, e não o encontra, ela se dá conta de que muito mais importante do que amar um encontro é amar uma busca. Pra te responder é a mesma coisa: desde bem cedo uso a arte pra me procurar, e felizmente não vou encontrar nada. Saber a resposta da pergunta não é o que realmente importa, mas sim viver por essa pergunta sem resposta. 

Você tem se perguntado de onde veio e para onde vai?

Tenho. Não tanto a questão da origem, essa grande cicatriz da alma humana, mas a do destino. Acho que ter alguma curiosidade pelo fim é um modo de ‘evitá-lo’, talvez. Ou diminui-lo. Mas enquanto você pensa muito sobre isso,  incidentes inesperados vão se sucedendo, às vezes ameaçadoramente, ao seu redor. O Raul Macedo, poeta de 26 anos, excelente, morreu atropelado faz dois dias. Podia ter sido qualquer um, não? Os fins são tão implacáveis que assustam. Agora, a poesia também não é uma maneira de dialogar com eles? Ou até de ofendê-los? A gente fica anulando isso e aquilo, esgotando a possibilidade X e Y, mas no fundo a gente só tem medo pra caralho de morrer.


Somos todos culpados ou ninguém tem nada a ver com isso?

Somos todos culpados de pensar que ninguém tem nada a ver com isso. Mais que culpados: envergonhados. Temos vergonha e medo de dizer que não domamos o caos, que pelo contrário o alimentamos, que apenas trocamos seu nome. Mas pelo menos a gente busca uma inspiração. Com o perdão da imagem de valor discutível, acho que só assim é possível, de relance, enxergar a luz dos vagalumes abusados nadando no breu. Jamais sugeriria esquecer nossas culpas, até porque algumas delas são essenciais, mas que sejamos mais abusados antes de apagar.


O que estamos fazendo aqui, afinal?

Eu não sei responder, mas imagino que o Adonis saiba: 
“O que é viver?/ Caminhar sem pausa/rumo ao anoitecer”. É isso.


FONTE: http://spiritualsdoorvalho.blogspot.com.br/




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