O fim de Quasímodo

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Poucas imagens reviram nossos estômagos com tanta força quanto a de um homem que, vítima de um determinismo trágico ou guiado por opções infelizes que culminaram em bifurcações ainda mais infelizes em seu destino,  acaba por se destruir/ser destruído como um potência que nunca chegou a ser (ou só se realizou no mesmo instante em que se apagou). A forca, o revólver, a fúria de uma força maior.

Na vida real, procuramos obviamente nos manter afastados do grotesco e do funesto. É preciso que nossas vidas sigam sem nos confundirmos, é preciso lidar com a queda à distância (todos os dias pessoas que sofrem, em seus dramas pessoais convenientemente alheios aos nossos). Na ficção, entretanto, a experiência subjetiva do leitor nos força a aproximação com o destino de nossos personagens. O que é irônico é que nossa empatia acaba se tornando maior por personagens do que por seres reais – porque nós nos identificamos com esses objetos inexistentes, os conhecemos profundamente, fazendo com que eles se tornem subjetivamente reais (manifestações intelectivas e sentimentais de nós mesmos, partes inseparáveis de nossa existência) ao passo que as tragédias cotidianas são subconjunto do “faz parte” que mentalmente aprendemos a nos dizer, distintas da nossa própria realidade, deslocadas do nosso próprio tempo.

Masoquismo ou não, o sofrimento na literatura, quando bem dosado, pode chegar às nossas emoções destrutivamente. E reféns de um autor talentoso, as tragédias persistem
muito tempo depois do último virar de página. Literatura é idealmente um cativeiro, arrisco dizer. Pode ser um cativeiro descontraído, um sequestro casual com cara de passeio no parque. Mas nossas emoções só vêm à tona com toda força quando somos confrontados com a mudança externa ou interna que a narrativa e nossos personagens sofrem, num movimento sempre trágico ainda que seguido de felicidade, porque algo se perde, algo muda permanentemente: o leitor é traumatizado.

O movimento de queda não necessariamente propicia o maior trauma, mas é o meio mais tradicional de alcançá-lo. Campbell à parte, somos atraídos e repelidos pelo fenômeno do herói caído. O sacrifício nos enche de fé na humanidade, a traição nos enfurece, a derrota é nossa derrota. Uma boa literatura consegue criar expectativas e saber o momento certo para atendê-las e subvertê-las. Muitas vezes já sabemos que o protagonista está condenado, seja porque o narrador já nos antecipou seu destino ou porque a natureza do próprio personagem aponta inevitavelmente para essa direção. Mas isso impede que tietes de Heitor deixem de torcer pela sua impossível vitória contra Aquiles?

Enfim. Um caso que considero ainda mais especial do que o de uma Antígona ou de um Sherlock Holmes é quando um personagem sem nenhum atributo heróico, um monstro repelente, um pária, é levado a executar dois movimentos diversos. Primeiro, ele se eleva de sua posição inicial – é o selvagem do cínico Admirável Mundo Novo seu verdadeiro herói, por exemplo. Ou Otelo, cujas falhas de caráter o tornam profundamente humano, que no fim é nossa principal referência. Ou o monstro magoado e complexo de Frankenstein de Mary Shelley, que ultrapassa seu papel como antagonista. Então ele cai. A ascensão em nosso conceito seguida da derrocada.

Quasímodo, o Corcunda de Notre-Dame, não é a única queda no livro homônimo. Na verdade, quase todos os personagens principais sofrem um destino cruel. O arquidiácono Claude Frollo (cuja decadência é a mais larga e cujo fim é o mais terrível, alguns diriam a grande queda, até porque literal, do romance) e seu irmão Jehan, ambos assassinados por Quasímodo, a cigana Esmeralda, enforcada injustamente, etc. Quase ninguém escapa, com exceção de Phoebus (que também não tem uma sorte das mais felizes) e Gringoire. Mas Quasímodo, a alma do romance, é quem faz o movimento mais elaborado de ascensão/queda. Do grotesco ao amável ao assustador ao deprimente, trata-se de um personagem complexo, irascível, e a falta de compaixão dos parisienses em função de sua aparência disforme e a educação rígida de seu tutor acabam tornando-o uma figura próxima do monstruoso. Mas é seu lado gentil, sua absoluta entrega às únicas pessoas que o trataram piedosamente em toda sua vida, o que revela o homem por trás do ou aprisionado no monstro.

Quasímodo é corcunda, torto, baixo, cego de um olho e surdo. De atributos heróicos, só possui a força. Que é colossal, praticamente herculiana. Muitos de seus atos são questionáveis, embora parte deles seja consequência da manipulação do arquidiácono. Num momento determinado acaba se opondo àqueles que vieram ajudar, imbecilmente, e de maneira indireta é primeiro motor do fim de Esmeralda e Claude Frollo, tudo que ele amava.

Mas Quasímodo é, no fundo, um Werther. Um Werther feio e mau, um Werther de roupas imundas e gestos bruscos. E ao contrário do epistoleiro alemão, Quasímodo não é egoísta: ele age segundo as pessoas que ama, buscando a felicidade das pessoas que ama. Não é ser incorrespondido o que derruba finalmente Quasímodo e sim ver que as pessoas que adorava não existem mais. Quasímodo, ao contrário do abastado Werther, só tem os sinos da catedral. É alvo dos preconceitos odiosos de uma França do século XV. Só depois de revelar sua alma contraditória e imprevisível, depois de passarmos a nos importar com essa figura dolorosamente feia, que Quasímodo se junta ao corpo de Esmeralda na sua desistência da vida. Não como um herói ou anti-herói, mas um personagem indeciso, alheio a juízos morais fora o amor, incapaz pela própria estupidez de alterar seu futuro e os de seus entes queridos. O amor de Quasímodo, inconscientemente destrutivo, essencialmente trágico, reverbera em tudo que foi lido até então, fortalece a tragicidade dos destinos de Esmeralda, Gudule e Frollo. Seu esqueleto descoberto e tornado poeticamente pó é o esqueleto de um romantismo sempre frágil e decadente.

Sabe-se que Victor Hugo escreveu O Corcunda de Notre-Dame (ou Notre-Dame de Paris) como uma investigação do passado de Paris, fruto do seu interesse pela cultura medieval, e tentativa de descrever/imaginar a constituição sócio-geográfica daquela época. É um romance francês sobre a arquitetura da França, o povo da França, a língua da França. As ruas, as praças, as vielas, os edifícios são tão importantes quanto qualquer personagem. E eles também estão caindo.

Victor Hugo quis expor a crueldade das mudanças, das transformações. A arquitetura que é assassinada pela imprensa, o presente que dá lugar ao futuro. Tudo deixa de existir, numa transformação que não mantém o ser: pelo contrário, abandona-o à perdição daquilo que não é mais. Seus personagens são um reflexo das mutações temporais, das pequenas destruições que sofremos a cada segundo.

Quasímodo resistiu, porém. Mesmo que seu espírito seja destruído, que seu corpo vire pó. Sua resistência no fim é fruto de sua própria complexidade, sua natureza paradoxal que quase como a de um ser não-racional mal consegue discernir entre horrível e belo ou cruel e bondoso. Quasímodo é a coexistência exemplar desses pólos, opostos que não podem ser ambos derrotados ao mesmo tempo.

Com tanta capacidade de nos horrorizar, mas também de nos atrair e comover em sua queda.


_Gabriel Resende Santos_

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