2 poemas

21:55



tá cara essa passagem

                                           Para Adriano Scandolara

aquele busão que você pega
oscilando nas ruas esburacadas
lançando pra todos os lados
os suvacos pestilentos
que filtram o ar
velocidade máxima
esquecendo a velha no ponto
que nos xinga puta
o motorista louco pra emaconhar
desapertando o cinto
carona atrasada dos estudantes
de cursinho de escola pública
relendo os livros de gramática
rapaziada perdeu é um assalto
todo mundo quietinho hein
revólver (de brinquedo) na nuca
o celular sem fone: te pago
um guaravita &
cria asa periquita &
ô annajuliaaa
na rio branco pneu que fura
e na avenida brasil e na rio-niterói
esse busão cheio de charme
e tiazonas taradas - esse busão
maior que qualquer nave que nos leve
a aliens e galáxias outras - o busão sim é
a verdadeira máquina de poesia

*

eu esperava um samurai

há um personagem de mangá
gritando por trás do café do livro
da escola da rotina do mendigo
não traduzimos ideogramas
mesmo se morarmos em um
o personagem de mangá grita
quando temos e perdemos filhos
o traço exagerado do grito
é o esqueleto de outros desenhos
e das caras tristes e eufóricas
com uma cruz cortando o nariz
tudo começa no grito do personagem de mangá
e no estereótipo do japonês que grita
embora japoneses sejam silenciosos (outro
estereótipo?) e nós silenciosos
muitas vezes por obrigação
mas não o personagem de mangá
que mora em olhos grandes expressionistas
dane-se o príncipe da disney (que não saiu
do castelo) com ralo melodrama
eu diria que o personagem mora na alma
de todos os povos infestando de oriente a américa
latina a américa germânica américa indiana
numa consciência que nem está consciente
de como se abre um mangá
se é que se deve abrir um


_Gabriel Resende Santos_

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